sexta-feira, 22 de junho de 2012

Angel Hearts - A Chegada (03)


   A noite chegou e meu pai também. Eu estava no quarto quando ele bateu na porta.
   - Toshiko.
   - Pode entrar. – Estava lendo algo para ver se não perdia o assunto da semana.
   - Sua professora me ligou... O que deu em você? – Meu pai era alto e toda vez que entrava no quarto me parecia que ele tinha arrombado a porta e vinha me bater. Mas seu coração era manso. – Ela estava pensando no seu bem.
   - Me desculpe pai.
   - O que?
   - Me desculpe se eu sou um erro. Se eu não deveria ter nascido. – Comecei a chorar baixo. – Ninguém naquela escola gosta de mim. Eles vivem bem. E eu sou uma pessoa diferente em meio a eles!
   - Então porque está pedindo desculpas?
   - Hã?
   - Você é diferente não é? – Eu o olhei profundamente, seu sorriso me acalmou um pouco. – Sinta-se feliz por ser diferente. Ser igual a alguém é ser uma simples cópia.
   - Tem razão.
   - Vou ficar fora por alguns dias a mais. – Ele me abraçou. – Seu pai te ama muito está bem? Yumi...
   Foi a primeira vez que ele me chamou de Yumi. Era realmente bom ouvir aquilo. Mas ao mesmo tempo, depois que ele saiu do quarto, toda a tristeza voltou até mim. E eu puder perceber que era inútil.
   Como eu não trabalhava com nada, o que me restava era ficar em casa com meus livros e minha cama. A noite se estendia e eu já não conseguia decifrar os escritos no livro. Meus espirros me fizeram gastar vários lenços de papel, e agora eu finalmente tentaria dormir.
   Depois de fechar meus olhos, o que me restava era chorar em meu mundo. Tudo o que eu fazia era ser o saco de treinos da minha mãe. Um símbolo para o meu pai. Um nada para o resto do mundo. Até para mim mesma.
   Foi então que olhei para a janela e a chuva já se confundia com minhas lágrimas. De repente ouvi uma voz.
   - Yumi... – A voz vinha de fora do quarto. Disso eu tinha certeza. Era meiga e simples. – Yumi. – Mais uma vez ela me chamava. O medo me veio, mas aquela voz me dava conforto. – Yumi... – Na terceira vez eu me sentei na cama, tentando ouvir.
   Minha mãe e meu pai haviam saído. E até agora não tinham voltado. Quem estava me chamando de um jeito tão suave? Levantei e fui até a janela do quarto. A chuva escondia tudo, estava tudo muito escuro.
   Até que olhei para a porta de minha casa e vi um ser de pé. Em frente à porta. Quando ameaçava apertar a campainha eu perguntei para mim mesma.
   - Quem é você? – Depois de dizer isso o ser que parecia um homem foi virando a cabeça em minha direção. E eu abaixei, me escondendo. – Droga. Deve ser algum psicopata ou ladrão.
   - Estou com frio... – A mesma voz agora falava comigo novamente. – Estou com frio Yumi... – Parecia que estava sendo atraída por ela. Então, devagar, voltei a olhar pela janela. O homem não estava mais na porta.
   - Ainda bem que ele foi embora. – Eu disse em voz alta. Depois me virei para deitar. Mas com o medo tinha me esquecido de me cobrir. Até que alguém com as mãos mais suaves que eu já vi me trouxe o cobertor. – Obrigada. - Depois de alguns segundos é que levantei correndo. – QUEM É VOCÊ?!
   Meu grito ecoou por todo o quarto. Estava em minha frente, um garoto. Totalmente vestido de branco, como um médico. Parecia brilhar, e tinha um sorriso lindo no rosto. Eu continuei assustada, sem reação enquanto ele me olhava amavelmente. 

(Fim do primeiro capítulo)

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